segunda-feira, 19 de maio de 2014

A voz do coração. (Por Lohan Lage)

Cena do filme a Voz do coração. Para toda ação, há uma reação. A famosa lei de Newton serve como pedra angular da construção desta resenha a respeito do filme francês “A voz do coração” (La Choristes). Dirigido por Christophe Barratier no ano de 2004, a obra traz à tona, ou melhor dizendo, traz com singular maviosidade a temática da educação.

Clichê ou não, falar de ensino e educação em uma obra cinematográfica se faz cada vez mais necessário nos dias de hoje, pois vêm se perdendo, em meio a demasiada banalização de todas as coisas, os sentidos do que é ensinar, do como ensinar, da dialética entre aluno e professor.

O filme trata do assunto com apreciável delicadeza, aguçando a sensibilidade dos mais brutamontes de plantão. Uma obra como esta se torna indispensável em qualquer plano de ensino que se preze. Se todos os professores se espelhassem no personagem Clément Mathieu, interpretado com uma brilhante naturalidade pelo ator Gerard Jugnot, talvez a paz e a liberdade de expressão reinassem em grande parte das instituições de ensino.

Em uma instituição chamada “O fundo do poço”, que abriga alunos “filhos da pós-segunda guerra mundial”, e que é comandada a mãos de ferro pelo diretor Rachin (François Berléand), é natural que se predomine a indisciplina. Quem se encontra no fundo do poço, não tem nada mais a perder. Como se vê, existem, nesse ambiente apresentado no filme, diversos fatores negativos que exercem influência direta no comportamento dos meninos que ali vivem.

O professor Mathieu, recém-chegado a este lugar, surpreende-se com os métodos aplicados pelo diretor, que não se cansa de repetir sua justificativa: para toda ação, há uma reação. Isto é, a punição a indisciplinaridade ou qualquer outro tipo de fuga do padrão estabelecido era severa. Mathieu, decidido a modificar esse cenário de violência desnecessária, toma uma atitude que, a princípio, podia parecer simples: ele transforma o significado contextual da palavra “reação”.

Como um professor precisa reagir diante de um aluno que não o respeita? Ora, primeiramente, descobrir o porquê que ele não o respeita. O que existe em seu tratamento com ele? Autoridade ou autoritarismo?

De acordo com o filósofo mineiro Régis Morais, “o autoritarismo é algo que procura se impor, com uso claro ou velado do poder, enquanto a autoridade é algo que se propõe à aceitação de pessoas ou grupos e só tem legitimidade enquanto dura tal aceitação”. No filme, o professor Mathieu não só abre mão, como também repreende o autoritarismo incutido na metodologia dos professores que ali lecionam, e, em contrapartida, utiliza-se de uma ferramenta sentimental muito mais poderosa e congregadora: o afeto.

Afetar é tocar profundo, é mudar o posicionamento de uma pessoa sem artifícios maléficos, mas sim, com carinho, com atenção merecida, com arte. A arte é o afeto em si, desde que seja manuseada de modo coerente. E assim o fez o professor revolucionário. Através da música, ele confraterniza toda a turma, e, gradualmente, elimina os maus exemplos que se sobressaíam entre eles.

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